Prepara uma ficha, um puzzle ou um jogo a pensar que pode ser útil. No entanto, ao começar, o seu familiar fica quieto, diz “não consigo” ou “não sei”, afasta o material e acaba por se irritar. É fácil interpretar esse momento como um sinal de que já não consegue participar em atividades.
Mas o mais comum é que seja outra coisa: a proposta era demasiado difícil, chegou num momento de cansaço, continha instruções a mais ou foi apresentada como um teste. Nas atividades para pessoas com Alzheimer, ajustar como, quando e para que se faz, é tão importante como escolher o quê.
Passo 1: mudar o objetivo de exercitar para conectar
Uma atividade não tem de ser terminada nem feita “bem” para ser valiosa. O sucesso também pode consistir em escolher uma cor, mover as mãos ao ritmo de uma canção, manter uma conversa, ajudar a pôr a mesa, sorrir ou partilhar uns minutos tranquilos.
A estimulação cognitiva estruturada pode produzir benefícios pequenos e a curto prazo na cognição de pessoas com demência ligeira ou moderada, e também favorecer a comunicação e a interação social. Ainda assim, os resultados variam entre estudos e não justificam transformar cada exercício num exame. As atividades não curam o Alzheimer, não revertem a doença e nenhum exercício concreto garante travar a sua progressão. O seu objetivo realista é favorecer a participação, o bem-estar, a autonomia possível e o uso das capacidades que a pessoa conserva.
Perguntas a fazer antes de escolher a atividade
O NICE recomenda que as atividades destinadas a promover o bem-estar se adaptem às preferências de cada pessoa, e que esta possa expressar as suas opiniões sobre os seus cuidados sempre que possível. Antes de propor uma atividade, convém fazer algumas perguntas sobre a pessoa:
- O que gostava de fazer e o que continua a interessar-lhe agora?
- Que capacidades conserva sem precisar de uma ajuda excessiva?
- Em que momento do dia está mais alerta ou recetiva?
- Prefere fazer algo sozinha, consigo ou num grupo pequeno?
- Tem dificuldades de visão, audição, mobilidade ou coordenação?
- Consegue compreender a proposta ou precisa de a ver em vez de a ouvir?
- A atividade tem sentido para ela ou parece apenas "boa para a memória"?
O ambiente também importa. Uma televisão ligada, várias pessoas a falar, uma mesa cheia de materiais ou a pressa podem aumentar a dificuldade sem que nos apercebamos. Os guias de comunicação aconselham reduzir distrações, usar frases curtas, dar tempo para responder e oferecer escolhas simples.
Passo 2: escolha a atividade
Nem todas as atividades servem para toda a gente (nem em todos os momentos). Damos-lhe algumas ideias para que avalie se poderiam servir para o seu familiar.
Atividades quotidianas com propósito
As tarefas familiares podem reforçar a sensação de identidade, utilidade e participação. Além disso, as intervenções ocupacionais e a reabilitação personalizada podem melhorar o desempenho em atividades concretas da vida diária, sobretudo quando a pessoa ajuda a escolher a meta.
Pode experimentar dobrar toalhas, emparelhar meias, pôr guardanapos, regar uma planta, limpar vegetais ou misturar ingredientes. Para simplificar, prepare apenas os objetos necessários, inicie você o primeiro movimento ou divida a tarefa: “primeiro pomos um guardanapo aqui”.
Em fases ligeiras pode assumir vários passos com lembretes discretos. Em fases moderadas pode realizar uma parte concreta enquanto outra pessoa completa o resto. Em fases avançadas talvez desfrute ao tocar nos tecidos, cheirar uma erva aromática ou acompanhar o movimento de misturar.
Não importa que as toalhas não fiquem iguais. Evite facas, lume, produtos tóxicos ou ferramentas se não as puder utilizar com segurança, e supervisione qualquer tarefa com água, calor ou risco de queda.
Música e recordações pessoais
A música conhecida pode abrir um espaço de desfrute, expressão e conexão mesmo quando manter uma conversa resulta difícil. A revisão Cochrane mais recente indica que as intervenções musicais provavelmente melhoram os sintomas depressivos ao finalizar o tratamento e talvez alguns problemas gerais de comportamento ou a conduta social, mas não demonstraram benefícios claros sobre a agitação ou a cognição.
Crie uma lista com canções escolhidas pela pessoa, oiçam uma peça juntos ou acompanhem o ritmo com palmas e movimentos simples. Em fases avançadas, basta ouvir ou balançar suavemente; não é preciso cantar nem reconhecer o intérprete.
Em vez de perguntar “lembras-te desta canção?”, pode dizer: “Esta ouvia-se muito nas festas, a mim transmite-me alegria”. Assim oferece uma porta para a conversa sem pôr a memória à prova. Observe a resposta: algumas canções podem despertar tristeza ou recordações desagradáveis e devem ser mudadas se gerarem mal-estar.
Atividade física adaptada
Caminhar, levantar-se e sentar-se com apoio, dançar sentado, lançar uma bola macia ou fazer movimentos suaves de braços podem favorecer a mobilidade, a participação e as capacidades necessárias para a vida diária. A evidência sobre cognição não é uniforme, mas diversas revisões apontam para possíveis melhorias funcionais com programas de exercício.
Adapte a atividade ao equilíbrio, à resistência e às indicações sanitárias. Pode encurtar o percurso, utilizar uma cadeira estável, imitar os movimentos em vez de os explicar ou transformar o passeio numa conversa sobre o bairro.
Avalie o calçado, os obstáculos, a temperatura, a hidratação e o risco de desorientação. Se houver quedas, dor, tonturas, dificuldade respiratória ou limitações importantes, peça orientação médica ou fisioterapêutica antes de iniciar uma nova rotina.
Atividades criativas e manuais
Pintar, modelar, fazer um colagem, arranjar flores ou trabalhar com lã permitem expressar-se sem que exista uma única resposta correta. As revisões sobre intervenções artísticas mostram resultados promissores na cognição, qualidade de vida ou sintomas neuropsiquiátricos (embora os estudos sejam variados e ainda não permitam assegurar que modalidade funciona melhor).
Para facilitar a atividade, ofereça duas cores em vez de uma caixa completa, prepare peças grandes já recortadas ou comece uma composição que a pessoa possa continuar. Em fases ligeiras cabem projetos com vários passos; em fases moderadas funcionam melhor ações repetitivas e visíveis; em fases avançadas pode ser suficiente explorar cores, materiais ou movimentos.
Evite desenhos infantis, salvo se a pessoa os escolher. Utilize colas não tóxicas, tesouras seguras e peças que não possam ser confundidas com comida.
Jogos e estimulação cognitiva
Os jogos para pessoas com Alzheimer podem incluir emparelhar imagens, ordenar objetos por cor, completar provérbios conhecidos, ler uma notícia breve e comentá-la, fazer cálculos quotidianos ou resolver um passatempo adaptado. A estimulação cognitiva no Alzheimer faz mais sentido quando combina conversa, participação e atividades variadas do que quando repete exercícios descontextualizados.
Escolha um nível em que a pessoa possa começar com uma pequena ajuda. Reduza o número de cartões, elimine o cronómetro, aceite respostas aproximadas e permita colaborar. Se um sudoku era um passatempo, talvez agora resulte mais agradável completar algumas casas consigo; se nunca gostou de números, não é necessário introduzi-los só porque tem um diagnóstico.
Os exercícios para pessoas com Alzheimer em papel são um recurso, não uma obrigação nem uma medida do valor da pessoa. Uma atividade pode ser benéfica ainda que só se faça uma parte ou termine em conversa.
Atividades sociais
Tomar um café com alguém conhecido, ver fotografias com um neto, fazer um telefonema breve, cantar num grupo pequeno ou preparar o lanche juntos são atividades para fazer com um familiar com demência que combinam participação e vínculo.
A algumas pessoas estimula-as um grupo, a outras custa-lhes seguir várias vozes e sentem-se mais confortáveis em encontros de um para um. A recomendação não é “socializar mais” a qualquer preço, mas criar uma situação acessível. Poucas pessoas, tempo para responder e possibilidade de observar sem ter de falar.
Fale diretamente com a pessoa e não sobre ela como se não estivesse presente. A presença e a companhia também contam quando a resposta verbal é escassa.
Atividades sensoriais e relaxantes
Uma caixa com tecidos e objetos significativos, contemplar o movimento das árvores, ouvir sons suaves, cheirar café ou um creme conhecido ou receber uma massagem nas mãos podem oferecer calma e conexão sem exigir uma resposta verbal. Em fases avançadas, alargar a ideia de “atividade” permite reconhecer que olhar, tocar ou ouvir também são formas de participar.
Pergunte ou antecipe o consentimento, pare perante qualquer gesto de recusa e evite óleos ou produtos que possam causar alergia, irritação ou interações. O contacto físico nunca deve ser dado como garantido.
Exteriores e natureza
Um passeio curto, regar vasos, tocar em folhas, observar pássaros ou sentar-se ao sol podem reunir movimento, estímulos sensoriais e conversa. A horticultura terapêutica tem mostrado resultados promissores na redução da agitação e aumento da participação, embora a evidência provenha de poucos estudos heterogéneos.
Simplifique o percurso, escolha uma hora tranquila e evite transformar o passeio numa sucessão de instruções. Verifique a temperatura, hidratação, acessibilidade, trânsito e risco de quedas ou desorientação. Em fases avançadas, uma janela com uma vista agradável ou cuidar de uma planta de interior pode aproximar parte dessa experiência.
Passo 3: adapte a atividade conforme o momento
As fases ajudam a orientar-se, mas não determinam por si sós o que uma pessoa consegue fazer. O sono, a dor, o ânimo, o ruído ou uma infeção podem mudar muito a sua resposta de um dia para o outro.
Na fase ligeira costuma ser possível manter maior autonomia, escolher entre várias propostas e realizar atividades conhecidas com ajudas discretas. A reabilitação cognitiva personalizada pode ser especialmente útil para trabalhar metas quotidianas que a própria pessoa considera importantes.
Na fase moderada funcionam melhor as instruções de um único passo, poucos materiais, demonstrações visuais e acompanhamento. Convém conservar a parte da tarefa que ainda consegue realizar e ajudar apenas no necessário.
Na fase avançada podem ganhar mais valor a música, o movimento suave, observar fotografias já identificadas, tocar em objetos familiares, olhar para o exterior ou partilhar um contacto consentido. Não é necessário exigir uma resposta verbal: um olhar, um gesto de relaxamento ou permanecer presente também podem expressar participação.
Sinais de frustração
Nem sempre dir-lhe-ão "quero parar". A frustração, o cansaço ou a sobrestimulação podem manifestar-se como:
- Abandono repentino ou afastar os materiais
- Irritabilidade, tom mais elevado ou recusa
- Silêncio, olhar perdido ou retraimento
- Repetir constantemente "não consigo", "não sei" ou "deixa-me"
- Inquietude, movimentos repetitivos ou mudança de expressão
Primeiro, baixe a exigência. Fale com calma, reconheça a emoção (“parece que isto está a ser pesado”) e evite discutir ou demonstrar que a resposta era simples. Pode retirar elementos, mostrar o passo seguinte, mudar de proposta ou fazer uma pausa. Se quiser parar, termina-se sem apresentar a desistência como um fracasso.
Ajude-a a avançar
Para lembrar como estimular uma pessoa com Alzheimer sem transformar a atividade num teste, recomendamos-lhe:
- Se não conseguir começar, mostre o primeiro passo
- Se se bloquear, reduza as opções
- Se se enganar, evite corrigir cada detalhe
- Se se cansar, faça uma pausa
Mas cuidado, ajudar a pessoa a começar não significa fazer tudo por ela. O objetivo é oferecer o apoio mínimo que permita participar.
Erros frequentes em atividades com pessoas com Alzheimer
Algumas atitudes bem-intencionadas aumentam a dificuldade ou danificam a confiança:
- Escolher materiais demasiado infantis
- Corrigir cada erro ou pedir que repita até acertar
- Dar várias instruções ao mesmo tempo
- Falar sobre a pessoa como se não estivesse presente
- Insistir em terminar porque "lhe convém"
- Medir o valor da atividade apenas pelo resultado
- Comparar o que faz hoje com o que fazia antes
Se procura novas ideias, todas as quartas-feiras partilhamos gratuitamente atividades nas Quartas-feiras de Reserva Cognitiva. Para quem prefere trabalhar sem computador, na Mr. Loris encontrará cadernos e packs de estimulação cognitiva em papel, como o Pack Atenção, Memória e Cálculo e o Pack Linguagem, Leitura e Escrita, Práxias e Gnosias. São recursos com atividades estruturadas, não tratamentos médicos: convém selecionar, simplificar ou interromper cada proposta conforme as capacidades, preferências e resposta da pessoa.